Terminei uma série de 21 artigos de opinião na coluna “Além do amanhã” do jornal SETE, construída desde setembro de 2024, com foco territorial em Barcelos. Não são as “21 Lições para o Século XXI”, de Yuval Noah Harari, mas são 21 reflexões sobre o nosso tempo, os desafios que enfrentamos, o conhecimento técnico-científico de que dispomos e a responsabilidade coletiva de pensarmos o futuro para além da efemeridade do dia a dia.
Em várias reflexões ficou claro que a engenharia tem de participar mais ativamente no debate público, ajudando, com o bom senso que a caracteriza, a transformar dados em informação e em decisões políticas equilibradas.
Ao longo desta série procurei demonstrar que muitos dos grandes desafios da sociedade moderna, tais como alterações climáticas, mobilidade, energia, habitação, digitalização ou coesão territorial, têm uma dimensão estrutural latente. Tal como numa ponte, o que garante estabilidade não é apenas aquilo que se vê, mas sobretudo os elementos de base, muitas vezes invisíveis, como as fundações. Enfrentar esses desafios exige infraestruturas sólidas, planeamento de longo prazo e capacidade técnica para antecipar o futuro.
Ao longo de quase dois anos, procurei aproximar o conhecimento técnico-científico da sociedade. Resiliência, redundância e resistência têm uma dimensão técnica importante, mas também social. As infraestruturas mais resilientes, redundantes e resistentes são aquelas que foram concebidas para durar, adaptadas ao local e conservadas ao longo do tempo. O mesmo princípio aplica-se às instituições, às cidades e às relações humanas. Sociedades prósperas constroem-se gradualmente, com conhecimento, cooperação entre diferentes áreas e capacidade de pensar para além do imediato.
O futuro constrói-se com tecnologia, mas também com uma cultura de responsabilidade coletiva. Tal como a engenharia, através de redes de colaboração, procura conceber, com ética, soluções sustentáveis e intergeracionais – como uma ponte dimensionada para mais de 100 anos – na sociedade, as decisões de hoje permanecem muito para além da geração que as toma. O futuro exige decisões sustentáveis que ultrapassem calendários políticos curtos.
Finalmente, tal como nos sistemas de monitorização estrutural são usados para “sentir” as pontes, também as sociedades precisam de desenvolver mecanismos, como o debate público, para “ouvir sinais” antes que os problemas se transformem em catástrofes, seja no envelhecimento das infraestruturas, nos efeitos das alterações climáticas ou nas fragilidades dos serviços públicos.
Aproveito para agradecer ao jornal SETE e ao seu diretor, Paulo Vila, pela oportunidade de dissertar sobre temas que nos inquietam. Numa sociedade marcada pela velocidade da informação e pela superficialidade da reflexão, é cada vez mais importante haver espaço público para questionar e pensar o futuro com espírito crítico e sentido de responsabilidade. Se estas reflexões tiverem contribuído, ainda que modestamente, para lançar algumas perguntas ou estimular novas perspetivas sobre os desafios da nossa sociedade, então já valeu a pena.
7 de agosto de 2026